Terça à noite, 16 de junho. A decisão não veio de uma conta numa planilha. Veio do fim de um processo. Eu e a minha esposa passamos semanas aplicando, na nossa própria vida, um método de planejamento que eu uso no meu trabalho (o Plano Perfeito, da Aliança Divergente). Cada um mapeou, separado, pra onde queria levar a vida nos próximos anos. E quando a gente cruzou os dois mapas, o que estava escondido há tempo apareceu na cara.
Eu queria construir tudo aqui, no Brasil. Ela sonhava em ir embora, os Estados Unidos. Por anos isso foi uma queda de braço silenciosa: cada um puxando pra um lado, ninguém decidindo.
Mas o método obriga a olhar fundo, e embaixo do conflito tinha uma coisa em que a gente concordava sem nunca ter dito em voz alta: os dois queriam a mesma coisa, fazer a nossa empresa prosperar, juntos, como sócios. Não era o lugar que importava no fim. Era construir isso a dois.
Foi quando paramos de brigar por "Brasil ou EUA" e começamos a perguntar "qual lugar serve pra nós dois" que apareceu um terceiro caminho que nenhum dos dois tinha no começo. A Espanha. E aí os dois apontaram pro mesmo ponto.
O Dia 1 é hoje.
Eu sou o Jonathan. Esposa e três filhos. Moro em São Paulo. Toco a eBuz, minha empresa, que ajuda experts a transformar o que sabem em produto educacional de verdade. Não sou imigrante ainda. Este blog vai ser o registro do processo inteiro, em ordem cronológica, com o que a gente acertar e o que errar. Quando eu pagar caro por bobagem, você lê aqui. Quando achar um atalho, também.
Por que não os Estados Unidos (o sonho que a gente cortou)
Os EUA eram o sonho dela, e foi o mais difícil de soltar. Mas a conta é dura pra quem é como a gente: nenhum dos dois tem diploma superior. Isso fecha quase todas as portas boas de green card. EB-5 são US$ 800 mil de investimento. H-1B exige diploma e ainda é loteria. Sobra abrir empresa por lá ou disputar o "interesse nacional". Caro, longo e incerto. Some a tributação americana sobre renda mundial e o custo de saúde, e o sonho virou um caminho de anos e muito dinheiro que a gente não tem agora.
A gente também olhou outros lugares no caminho. Cada um caiu por um motivo. No fim, sobrou a Espanha. E sobrou por razões concretas.
Por que a Espanha
- Cidadania em 2 anos. O artigo 22 do Código Civil espanhol permite que brasileiro peça nacionalidade após dois anos de residência legal (regra para ibero-americanos). É o caminho mais rápido pra um passaporte europeu, que vale nos 27 países do bloco.
- Não trava no diploma. Diferente dos EUA, o caminho que serve pra gente na Espanha aceita experiência profissional no lugar do diploma. Pra quem não tem faculdade, isso muda tudo.
- O idioma se aprende em meses. Espanhol pra quem fala português é um pulo curto: pra mim, pra ela e pras crianças.
- Dá pra fechar a conta de cinco pessoas fora de Madri e Barcelona: Valência, Alicante, Málaga. Custo viável e clima quente, que a família toda quer.
- E tem o lado do negócio. O mercado de língua espanhola é gigante, e o que eu faço escala direto pra lá. Inclusive já tenho um cliente na Espanha hoje. Mudar não seria recomeçar do zero. Seria expandir o que já existe.
E aqui está a descoberta que amarrou tudo, e que só apareceu quando fiz a conta: o valor de renda que eu vou ter que comprovar pra trazer a família é praticamente a mesma meta de faturamento que eu já preciso bater no negócio. Quer dizer: fazer a empresa funcionar e qualificar pro visto viraram o mesmo objetivo. Não são duas batalhas. É uma só. E é uma que a gente vai travar junto, que era o sonho desde o começo.
A pergunta que ainda está aberta: o imposto
Tem um tema que eu ainda não resolvi, e vai dominar os próximos posts: como fica a tributação.
O caminho que faz sentido pra mim é o visto de nômade digital, desenhado pra quem trabalha remoto atendendo cliente de fora. Ele abre a porta de um regime especial (a Lei Beckham): em vez da tabela progressiva espanhola, uma alíquota fixa de 24% sobre a renda, até um teto alto, por alguns anos. No papel, a diferença é enorme.
O problema é o que tem entre o "no papel" e o "no meu caso":
- Eu me enquadro mesmo no Beckham sendo autônomo brasileiro trabalhando de casa? Tem nuance sobre o que conta como "estabelecimento permanente" que pode me jogar pra fora. Eu ainda não confirmei onde caio.
- E a minha PJ no Brasil? Se eu continuo distribuindo lucro por ela, esse dinheiro entra no regime espanhol ou cai numa bitributação?
- E as mudanças recentes na lei brasileira sobre dividendos enviados ao exterior: como conversam com o lado espanhol?
- E a declaração de bens no exterior: em que situação ela me pega?
Eu não vou cravar número nem citar artigo de lei aqui antes de confirmar na fonte. Estou organizando consulta com assessoria nos dois lados e vou cruzar com os documentos oficiais. O próximo post é exatamente sobre isso. Vai vir com fonte linkada, não com achismo.
Antes de fechar o Dia 1, três coisas
Primeira. Este blog não é guia turístico nem vlog de "vem morar comigo na Europa". É documentação técnica de um processo real. Cada decisão com data, cada custo com valor, cada erro com o motivo.
Segunda. O foco é família. Quase tudo que existe em português sobre imigrar pra Espanha é de solteiro ou casal sem filho. Com três filhos o jogo é outro: comprovação financeira maior, escola obrigatória, pediatra, moradia maior, papelada multiplicada. É o público que está sem material decente.
Terceira. Se você está no mesmo barco, comenta em que ponto está. Se já imigrou, me corrige onde eu errar. Se é assessor fiscal ou advogado de imigração e viu furo, fala alto. Este blog fica melhor com a sua correção.
O próximo post sai na sexta. Até lá.
Jonathan
P.S. Este post não foi revisado por advogado nem assessor fiscal. As reflexões são pessoais. Cada caso de imigração é individual. Consulte um profissional habilitado antes de decidir qualquer coisa com base no que lê aqui.
